Apostas online no Brasil – Estudo revela drenagem de R$ 143,8 bilhões do Varejo e alerta para crise de endividamento e saúde

Data de publicação: 10 de setembro de 2026
Levantamento inédito do IFEPEC, NEIT/Unicamp e Instituto Axxus traz um retrato dos impactos econômicos, sociais e de saúde.
O avanço vertiginoso das plataformas de apostas online (bets) no Brasil ultrapassou a esfera do entretenimento esportivo e se consolidou como uma das forças mais disruptivas sobre a economia real. Um amplo estudo nacional realizado pelo IFEPEC (Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa), em parceria com o NEIT/Unicamp e o Instituto Axxus, revelou que as apostas drenaram impressionantes R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026.
O montante que deixou de circular no comércio e em serviços de consumo direto — segmentos fundamentais para a geração de empregos e faturamento local, como a alimentação fora do lar — foi absorvido por um ciclo vicioso marcado por alto endividamento das famílias, redução do consumo essencial e forte impacto na saúde pública.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) citados no levantamento, estima-se um recuo de 0,7% no faturamento do varejo a cada R$ 1 bilhão direcionado às apostas digitais.
O perfil: cassinos virtuais e renda comprometida
O estudo combinou duas frentes investigativas de abrangência nacional. Na primeira, foram ouvidos 1.500 apostadores das classes C, D e E nas cinco regiões do Brasil (com margem de erro de 3% e 95% de nível de confiança).
Os resultados desmistificam a tese de que o setor se restringe a palpites em partidas esportivas:
- Cassinos online dominam a rotina: 40% dos entrevistados operam exclusiva ou predominantemente em jogos de azar instantâneos (caça-níqueis digitais, crash games, roletas e pôquer), modalidades associadas a um maior risco de dependência severa.
- Sem barreiras de desembolso: 88% apostam diretamente pelo próprio celular e 86% utilizam o Pix como meio preferencial de pagamento. A frequência é contínua: 54% apostam ao menos uma vez a cada dois dias e 30% jogam diariamente.
- Ilusão financeira: 74% dos usuários afirmaram apostar por razões estritamente financeiras — como a expectativa de quitar dívidas (23%), complementar a renda (18%) ou adquirir bens duráveis (compra ou troca de veículo e imóvel somam 33%).
A realidade dos números, contudo, é estritamente deficitária: 99% dos entrevistados declararam ter tido prejuízo financeiro nos últimos 30 dias e 99,6% perderam mais do que ganharam ao longo do último semestre.
Menos comida, lazer e consumo essencial
Para o comércio de bens e alimentação, os desdobramentos sobre o bolso do consumidor revelam uma troca forçada de prioridades. A pesquisa identificou comportamentos de risco agudos no orçamento doméstico:
- 41% reduziram a compra de itens essenciais, como alimentos, higiene básica e medicamentos;
- 48% cortaram despesas com material escolar e manutenção do lar;
- 29% deixaram de pagar contas básicas, como água, luz ou o próprio aluguel, para direcionar recursos aos aplicativos de jogos;
- 27% recorreram a empréstimos para continuar apostando.
O quadro de inadimplência atinge proporções massivas: 81% dos apostadores ouvidos afirmam ter dívidas ativas, sendo que 74% destes já estão com parcelas em atraso. Em paralelo, dados do Serasa indicam que a inadimplência no país alcançou 82,8 milhões de pessoas em março de 2026, com tíquete médio de dívida na casa de R$ 6.728.
Custo clínico: R$ 30,6 bilhões por ano e alerta psiquiátrico
Na segunda vertente da pesquisa, o instituto entrevistou 2.020 profissionais de saúde mental (1.020 psiquiatras/neurologistas e 1.000 psicólogos clínicos). O levantamento clínico documenta que o Transtorno do Jogo (ludopatia) já opera como um grave determinante social de saúde.
Entre os pacientes atendidos que praticam apostas:
- 62% apresentam quadros de depressão maior ou distimia;
- 51% convivem com transtornos por uso concomitante de substâncias (álcool e outras drogas);
- 31% manifestam ideação suicida recorrente, além de 22,7% relatarem histórico de planejamento de autoextermínio associado a graves perdas financeiras;
- 10% a 20% chegam a demandar internação psiquiátrica ou intervenção em unidades de acolhimento emergencial (CAPS).
O dossiê do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS, 2025) calcula que os danos diretos e indiretos associados ao jogo problemático geram um custo de R$ 30,6 bilhões anuais ao país, puxados sobretudo por custos médicos e perda de produtividade decorrentes de mortes por suicídio (R$ 17 bilhões) e depressão (R$ 13,4 bilhões).
Em contrapartida, a Lei Federal nº 14.790/2023 destina apenas 1% da arrecadação tributária das apostas para investimentos na saúde pública, montante amplamente insuficiente frente à sobrecarga imposta ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Perda de controle e o papel das bonificações
O levantamento ressalta ainda a falácia do “autocontrole” individual: apenas 4% dos entrevistados afirmam estipular e efetivamente respeitar um teto de gastos mensal. Por outro lado, estratégias agressivas de marketing digital exercem pressão direta sobre a compulsão: 95% dos apostadores declararam já ter recebido bônus, rodadas grátis ou cashback, e 88% apostaram além do habitual após serem estimulados pelas promoções.
O resultado é um profundo descompasso comportamental: 97% declaram o desejo explícito de parar ou reduzir a frequência das apostas, mas somente 9% acreditam que serão capazes de interromper o hábito por conta própria.
O debate necessário para o varejo e a sociedade
A divulgação de diagnósticos robustos e metodologicamente independentes como este reforça a urgência de aprofundar o debate institucional sobre a regulação dos jogos de aposta no Brasil. Para entidades de representação do setor produtivo e de serviços, a expansão desenfreada das apostas atinge diretamente a ponta final da economia: quando a renda do trabalhador é drenada por plataformas de apostas, perdem os restaurantes, os pequenos lojistas, a indústria de alimentos e a comunidade local.
Nas conclusões do estudo, os pesquisadores defendem uma agenda de políticas públicas mais assertiva, que inclui o endurecimento da fiscalização de plataformas irregulares pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), restrição severa à veiculação de bônus estimulantes, travas de depósito a beneficiários de programas de transferência de renda e a revisão da destinação de receitas fiscais para financiar a rede de acolhimento psicossocial no SUS.
Preencha os dados abaixo e acesse o estudo completo.



